domingo, 23 de agosto de 2026

Santos gigantes formam roteiro da fé católica em Fortaleza

Foto Fabiane de Paula.
Por cafés, por praças, por museus. É possível fazer vários roteiros em Fortaleza, inclusive um menos convencional: por esculturas gigantes de santos católicos. Sete monumentos dessa natureza integram a paisagem da Capital, e um oitavo está a caminho – dedicado à Nossa Senhora da Conceição, no Conjunto Ceará. Mas desbravá-los vai além do componente religioso.

A opinião é de Emanuel Freitas, professor de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e pesquisador de religiões. Segundo ele, à medida que devoções a santos se espalharam pelo mundo, a presença dessas entidades também se impõe como componente físico – o que justifica, por exemplo, uma escultura de Nossa Senhora de Fátima não apenas em Fátima, Portugal, onde o culto à santa originalmente começou, mas também em Fortaleza.

“Foi a forma que a Igreja, unida ao poder público local, encontrou de permanecer como marca da identidade religiosa daquele lugar. Sendo marca da identidade religiosa, há também aí uma marca cultural”, situa. “De repente, você une um monumento a outro, e constitui uma certa rota, certo caminho de devoção”.

Do Montese ao Mucuripe, passando pelo Vila Velha e o Panamericano, a capital do Ceará não deixa a desejar nesse quesito.

Na percepção do estudioso, cada vez mais essas imagens gigantes se transformam em insígnias de determinados espaços – como não associar a estátua de Santa Edwiges à Avenida Leste-Oeste? –, o que faz com que elas se mesclem à paisagem urbana “sem grandes problematizações”, inclusive por quem não professa a fé católica.

Por outro lado, o professor destaca: “Em tempos de diminuição demográfica do catolicismo, parece haver um investimento numa visibilidade maior de monumentos assim, tentando resgatar a ideia do catolicismo como cultura brasileira. A religião católica já é visível pelos templos, festividades e, com o tempo, também por essas esculturas gigantes. Elas inserem as cidades inclusive na esfera econômica, a partir do turismo religioso”.

Como começou a tradição dos santos gigantes em Fortaleza?

O costume de erguer grandes obras em concreto para homenagear santos católicos dialoga sobretudo com o turismo de matriz espiritual iniciado na virada do milênio.

“Houve muito investimento no programa de municipalização – e depois regionalização – do turismo entre os governos de Fernando Henrique Cardoso e no primeiro governo do presidente Lula, favorecendo incentivos ao fortalecimento dos equipamentos locais como centro de atração de visitantes”, contextualiza Christian Dennys Monteiro, pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e Professor na Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec-SP).

O pontapé em solo cearense, de acordo com ele, foi a imagem de São Francisco de Assis, inaugurada em 2005, inspirada na “competição” com o tamanho da escultura de Padre Cícero, de 1969, no Horto de Juazeiro do Norte. Enquanto a primeira tem 30 metros de altura, a segunda possui 27 metros.

“Em seguida, vieram as imagens de Nossa Senhora da Assunção, Nossa Senhora da Saúde, Santa Edwiges e Nossa Senhora de Fátima, em Fortaleza, e várias outras no interior do Estado”, enumera.

Para Christian, baseado na dissertação de Marcos Rocha – estudante orientado pelo professor no mestrado em 2018 – o centro de inspiração para essa prática dialoga com o totemismo sacroprofano. O termo está relacionado à unificação da projeção, no espaço geográfico externo, dos valores simbólicos da pós-modernidade.

“Em cada estátua há um misto de arranha-céu da era urbano-industrial e uma volta ao esplendor do passado idealizado. O que ainda ajuda a fechar o peso simbólico é o fato de essas estátuas servirem de cenário perfeito para as selfies dos cliques fotográficos e vídeos voltados à projeção do fiel na rede social”, completa o pesquisador

Com informações do Diário do Nordeste.