 |
| Foto Kid Junior |
O local que recebia o êxodo de retirantes do interior do Ceará, durante a grande estiagem de 1932, hoje configura abandono e vestígios de uma tentativa de memória. A estrutura do último vagão da antiga Estação Otávio Bonfim, no bairro Farias Brito, em Fortaleza, não recebe intervenção de restauro há pelo menos dois anos e tornou-se espaço de esquecimento, tanto da população local quanto do poder público.
O vagão já recebeu projetos de revitalização e propostas para receber uma nova função, mas nenhuma das iniciativas avançou.
Descarte de lixo, depósito de entulho, mato crescido, ferrugem e pichação são os desgastes mais visíveis do vagão que, em setembro de 2024, foi alvo de um incêndio sem causa apontada. Desde então, o “esqueleto” do equipamento resiste ao tempo, sem sinalização assertiva de quando será revitalizado nem as formas de intervenção desse espaço.
“Aqui tá tudo abandonado”
Para os moradores do Farias Brito, a deterioração do vagão não é um problema recente. José Edmar de Araújo, de 81 anos, nasceu e foi criado no bairro e afirma que costuma passar pelo local todas as tardes. Segundo ele, havia a expectativa de que o espaço pudesse ser transformado em uma biblioteca pública da Prefeitura de Fortaleza, mas a ideia não avançou.
“De jeito nenhum”, responde, ao ser questionado sobre alguma intervenção da Prefeitura. Segundo o morador, apesar do abandono, a população também não consegue retirar os materiais ou interferir na estrutura do equipamento.
O espaço, que guarda referências à história ferroviária da cidade e é associado à antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA), também é apontado pelos moradores como um ponto utilizado para práticas inadequadas, ainda que sem uma ameaça direta à vizinhança. “Usam droga lá. Mas não mexem com ninguém, não.”
A sensação de perda também aparece na fala da aposentada Maria José dos Santos, de 77 anos. Moradora da região, ela recorda de quando o espaço apresentava outra aparência. “Era bem bonito”, afirma. Maria aponta ainda que a falta de conservação interfere na relação dos moradores com o espaço, que poderia ser utilizado pela própria comunidade.
A falta de manutenção também é percebida nos espaços públicos próximos ao vagão. Alzira Porfírio, de 67 anos, pensionista, descreve uma vizinhança marcada pelo abandono de equipamentos que deveriam atender principalmente aos moradores mais velhos.
“Aqui tá tudo abandonado”, afirma. Segundo ela, embora exista uma praça na área, não há brinquedos para as crianças, e os equipamentos destinados à prática de exercícios estão quebrados.
“As lixeiras são a maior imundície do mundo”, reclama. A moradora afirma que a própria comunidade acaba assumindo parte da limpeza do espaço. “Nós é quem pagamos pra varrer e capinar isso aqui.”
De acordo com Alzira, a presença do poder público na região seria insuficiente para acompanhar as necessidades de manutenção. “Uma ou duas vezes por ano que eles vêm”, diz, referindo-se à Prefeitura.
Além do lixo acumulado, ela relata a presença de fezes humanas e outros resíduos na área. Para a pensionista, a situação é ainda mais preocupante porque a vizinhança é formada, em grande parte, por pessoas idosas.
Quanto à manutenção da praça, a Secretaria da Regional 3 informou, em nota à reportagem, que foram realizados serviços de capina e varrição na Praça Otávio Bonfim em 26 de junho. Segundo a pasta, a periodicidade das ações é definida conforme a necessidade de cada equipamento, a partir de vistorias técnicas.
A Regional afirma ainda que encaminhará, “nos próximos” dias, uma equipe ao local para realizar novo levantamento e incluir as atividades na programação das equipes de zeladoria.
A gestão municipal informou também que segue avaliando, em conjunto com os órgãos competentes, a destinação e as possibilidades de uso e valorização do vagão, considerando sua importância histórica e as diretrizes de preservação do patrimônio público.
Inspirado no Café do Vagão, na Praça Luíza Távora, um empresário chegou a elaborar um projeto para ser executado no vagão da Otávio Bonfim. Segundo ele, a proposta, além de revitalizar a estrutura deteriorada, transformaria o equipamento em um restaurante temático.
A iniciativa privada chegou a iniciar a documentação necessária para a execução do projeto, com o despacho de uma autorização administrativa, o Termo de Permissão de Uso (TPU), emitida pela Regional 3. No entanto, a Pasta posteriormente revogou a decisão, sob a justificativa de “se tratar de equipamento integrante de patrimônio histórico”.
Com informações do Diário do Nordeste.