sábado, 18 de julho de 2026

Narrativa de traição estará no centro do debate eleitoral no Ceará

Foto Diário do Nordeste 
A eleição de 2026 no Ceará já tem sua palavra-chave, e ela não está em programas de governo. Entre as narrativas que irão dominar o debate eleitoral até outubro, a traição certamente será uma das principais. E há um motivo específico: os dois principais candidatos até o momento são fruto de uma divisão do grupo governista que se manteve unido entre 2006 e 2022.

A querela que leva o debate eleitoral para o campo moral gira em torno dos principais personagens daquele momento: os irmãos Cid e Ciro Gomes e o senador Camilo Santana. Mas há outros personagens que dão reforço às narrativas.

Ao afirmar nesta semana que Cid Gomes (PSB) "traiu o pai, a mãe e o irmão mais velho", o deputado federal Eunício Oliveira (MDB) demonstrou sua insatisfação com as articulações para a formação da chapa governista, mas ultrapassou a fronteira da política e entrou em seara pessoal. Não por acaso. É nesse terreno, entre o acordo partidário e as relações familiares, que a disputa cearense se desenha há quatro anos.

Quem traiu quem?

O inventário de acusações é extenso e circular. Ciro Gomes sustenta desde 2022 que foi traído pelo irmão Cid e por Camilo Santana (PT) no rompimento entre PT e PDT. Questionado recentemente sobre o tema, Camilo devolveu a acusação: quem traiu foi Ciro, ao defender o apoio a Roberto Cláudio quando havia acordo para que a candidata fosse Izolda Cela.

O anúncio de Cid como candidato ao Senado, nesta semana, adicionou novas camadas. Para a oposição e para aliados de Ciro, a candidatura em chapa oposta à do irmão configura uma segunda traição familiar. Há ainda uma terceira acusação em circulação: a de que Cid teria traído Júnior Mano (PSB), nome que ele próprio defendeu para a vaga desde o ano passado.

Na costura final, Mano será o primeiro suplente de Cid. Aliados do senador apresentam o arranjo como prova de lealdade; adversários, como prêmio de consolação.

Disputa de versões

O termo traição aparece, portanto, em diferentes versões, atribuído a diferentes personagens, em diferentes períodos. Cada campo construiu a própria cronologia dos fatos, com vilões e vítimas em posições trocadas.

A disputa não é sobre o que aconteceu, mas sobre quem vai contar a melhor história para convencer o eleitor.

Poucas palavras carregam peso tão negativo na história política. Roma viu Júlio César tombar pelas mãos de Brutus. O imaginário cristão fez de Judas o nome próprio da deslealdade. A traição sempre condenou mais quem a pratica do que quem a sofre. Na política, a acusação funciona como mancha de difícil remoção: atinge o caráter.

Narrativas como essa têm força eleitoral porque falam de lealdade, família e palavra empenhada, temas que o eleitor julga sem precisar de tradução. Entretanto, o risco é simétrico: quem acusa também se expõe ao julgamento sobre as próprias escolhas.

Com informações do Diário do Nordeste.