quinta-feira, 9 de julho de 2026

Mulheres negras concentram 88% dos óbitos maternos em 2025 no Ceará

Foto Yuri Alves
Mulheres negras seguem sendo as principais vítimas da mortalidade materna no Ceará. De acordo com boletim epidemiológico divulgado na última semana pela Secretária de Saúde do Estado (Sesa), só em 2025 esse grupo concentrou cerca de 88% dos 71 óbitos do porte registrados na unidade federativa. 

Levantamento mostra o comportamento do índice geral nos últimos dez anos e analisa fatores como recorte de raça, causas obstétricas e critério de evitabilidade.

É classificada como morte materna aquela que acontece durante a gestação ou até 42 dias após o término da mesma, "independentemente da duração ou da localização da gravidez. É causada por qualquer fator relacionado ou agravado pelo estado gravídico ou por medidas tomadas em relação a ela".


Conforme informações disponibilizadas no documento, o Ceará registrou 66,1 óbitos por 100 mil nascidos vivos no ano passado, contabilizando 71 mortes, sendo 61 delas de mulheres negras.

Quando se observa a série histórica, é possível perceber que esse grupo vem representando mais de três quartos das mortes do porte identificadas a cada ano — no período que vai de 2015 até 2025.

Proporção de óbitos maternos por mulheres negras no Ceará na última decáda, de acordo com dados do boletim epidemiológico, foi de: 2015 (81,5%), 2016 (73,1%), 2017 (88,8%), 2018 (83,1%), 2019 (85,2%), 2020 (79,55), 2021 (78,35), 2022 (76,7%), 2023 (89,2%), 2024 (84,9%) e 2025 (88,%).

Em relação ao ano passado, mulheres brancas representaram 12% das 71 mortes maternas registradas, não havendo registros entre aquelas classificadas como amarelas e indígenas.

Já analisando somente os óbitos maternos obstréticos de mulheres negras, o levantamento mostra uma oscilação do índice, que se manteve elevado ao longo da série histórica, sendo de: 2015 (75), 2016 (62), 2017 (73), 2018 (69), 2019 (63), 2020 (91), 2021 (102), 2022 (63), 2023 (58), 2024 (65), e 2025 (61).

De acordo com Joanice Conceição, professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), a prepoderância de vítimas negras tem por trás um "percurso histórico", uma vez que desde "a escravidão existe uma tendência de desumanização" de pessoas negras.

Educadora, que é doutora e mestre em Antropologia, explica que esse cenário construiu a visão de que corpos negros "resistem a dor", o que exclue eles de cuidados. Além disso, ela destaca que outros fatores, como o acesso negado a educação, também influencia diretamente na procura por assistência médica.

"Essas mulheres muitas vezes não sabem onde buscar [tratamento de saúde], como reivindicar. É uma série de coisas que vão se somar para que esse número [de mortes maternas] seja recorrente", diz.

Com informações do O Povo.