terça-feira, 28 de julho de 2026

Com 53% do eleitorado, mulheres receberam menos de 19% dos votos para o legislativo no Ceará

Foto Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados/Júnior Pio/Alece

As mulheres são maioria entre os eleitores do Ceará, mas essa vantagem numérica não se reflete na ocupação dos espaços de poder. Nas eleições de 2022, elas representavam cerca de 53% do eleitorado do estado.

Ainda assim, aproximadamente 81% dos votos para deputado estadual e deputado federal foram destinados a candidatos homens. O resultado evidencia que, apesar de serem maioria apta a votar, as mulheres continuam enfrentando dificuldades para transformar esse peso eleitoral em representação política.

Especialistas ouvidos pelo PontoPoder avaliam que o problema não começa nas urnas. Antes mesmo do primeiro voto ser registrado, uma série de decisões tomadas pelos partidos influencia quem terá mais condições de chegar competitivo à disputa. É justamente nessa etapa que começa a ser desenhada a desigualdade observada no resultado final.

A disputa começa antes da campanha

A cientista política Monalisa Soares, professora da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem), avalia que a representação feminina começa muito antes da votação. Para ela, os partidos ainda reproduzem desigualdades de gênero ao privilegiar candidaturas masculinas desde a formação das chapas até a distribuição dos recursos de campanha.

"Os partidos historicamente têm priorizado candidaturas masculinas. Isso significa uma distribuição desigual de recursos, do tempo de televisão, da visibilidade e dos meios necessários para realizar as campanhas eleitorais", afirma.

Na prática, isso significa que muitas mulheres chegam à disputa em condições inferiores, com menos recursos, menos exposição e menor apoio interno. O resultado acaba aparecendo nas urnas.

Essa leitura é reforçada pelo estrategista político e especialista em marketing eleitoral Adriano Canutto. Para ele, o resultado das urnas precisa ser analisado para além do comportamento do eleitor. A diferença, segundo o especialista, está nas condições em que homens e mulheres chegam à disputa.

"A persistência de 81% dos votos direcionados a homens não é um problema de preferência de voto, mas de oferta qualificada e infraestrutura de campanha", diz.

Com informações do Diário do Nordeste.