terça-feira, 17 de março de 2026

Médica alivia sofrimento de crianças com câncer em Fortaleza por meio do afeto

Foto Kid Jr.
Ninguém sai triste do consultório de Ana Eduvirges Carneiro de Oliveira. Ninguém fica sem consolo e abraço. Ela faz praticamente o impossível: num cenário de dor e angústia, reverte o panorama para que o afeto impere sempre. Ana é oncologista pediátrica em hospitais de Fortaleza e do Brasil, com foco em cuidados paliativos. Em outras palavras, lida com crianças em tratamento contra o câncer e tudo o que esse universo engloba.

Não é pouca coisa. Do conhecimento do diagnóstico às formas de lidar com a doença, cada detalhe tem peso, suplício, aflição. Não parece justo alguém tão pequeno, tão recente nessa vida, saber que possui algo grave em si. Quando pais e mães chegam até a doutora pela primeira vez, é esse o pensamento: por que passar por algo tão difícil logo ali, em pouca idade? Existe algum modo de lidar com a situação de jeito menos doloroso?

“Quando o filho de alguém está morrendo com falta de ar, dor ou algo assim, não adianta chegar para os pais e dizer que vai dar tudo certo. Não é isso. Preciso saber manejar o caso, saber o que fazer para aliviar o sofrimento. São muitos: do corpo, da família, espiritual, da partida de quem você ama, de quem está partindo e tem medo de como vai ficar quem ama...”, enumera a profissional, voz embargada ao lembrar de cada paciente.

“Acho que a gente impacta diariamente trazendo o nosso melhor. E o nosso melhor não é só tecnicamente – não é só oferecer o melhor tratamento, por exemplo. Vai muito além disso. Tem a ver com a parte humana, o sorriso, a preocupação, o cuidado, o abraço”. Prova maior está em como acontece o contato entre médica e paciente. Ana é surpreendida diariamente por quem é muito grato pelo trabalho dela. Fazem questão de dizer que gostam, que amam.

Num dia um pequeno leva tapioca. No outro, um bombom. No outro um desenho, um biscoito, até presilha. Os cabelinhos deles caem, corpos precisam se ajustar para lidar com intervenções tão fortes; mas há também vontade real de cuidar de quem, de fato, faz questão de zelar para que o coração de cada um sossegue, encontre algum tipo de alento.

Foi assim que, lá atrás, talvez já mirando nessas possibilidades de vida, a ainda menina Ana Eduvirges despertou para a Medicina. Tinha sete anos quando escolheu a vocação. “Sempre fui uma criança muito madura, muito precoce. E lembro exatamente do dia em que estava conversando com minha mãe sobre isso”, conta. Mais à frente, aos 11, adicionou mais um tijolinho ao futuro após assistir ao filme “Patch Adams - O Amor é contagioso”.

No longa, estrelado por Robin Williams, um médico descobre que humor e carinho podem ajudar a curar pessoas hospitalizadas. Essa tese entra em conflito, porém, com os defensores da medicina tradicional no local onde ele trabalha. Ana se viu na mesma posição do personagem anos depois de conferir, encantada, à produção: precisou estudar e bater o pé muitas vezes para fazer com que ninguém fosse lembrado apenas pela doença que possui.

“O cuidado paliativo é muito isso: quando se fala em fim de vida é, na verdade, criar dias de vida. Oportunizar momentos, criar lembranças, realizar sonhos, fazer diferença. Não é só focar na dor. Nesses tratamentos, você foca tecnicamente no câncer porque precisa tratá-lo; mas é preciso focar humanamente no todo porque não se está só tratando um tumor. Não é só um protocolo: é uma criança, filha de alguém, dona de um cachorro, que gosta de fazer coisas... É nesse contato que você escuta histórias e passa até a fazer parte da família”.

Esse movimento acontece sempre. Mães de pacientes por vezes se tornam amigas pessoais da médica – mesmo quando os filhos não resistem e partem para o infinito. Crianças participam da vida dela a ponto de serem convidadas para a própria cerimônia de casamento.

É troca viva, de um bem-querer recíproco, não só porque a vida pode estar por um fio, mas porque todo tempo é tempo de celebrar o que faz bem. E, a depender de Ana, assim continuará.

Na luta diária dela, quer fortalecer, no Sistema Único de Saúde (SUS), a neuro-oncologia – especialidade a qual se dedica, voltada ao diagnóstico e tratamento de tumores benignos ou malignos no sistema nervoso central e periférico. Para se ter ideia, no Centro Pediátrico do Câncer, em Fortaleza, ela já integra equipe com profissionais médicos necessários na área, a exemplo de radiologista, radioterapeuta e neurocirurgião.

“Pensando demograficamente – que o meu paciente que trata sistema nervoso central em Fortaleza tem acesso às mesmas coisas de um paciente que está em São Paulo, referência em todo o Brasil – isso me deixa muito feliz”, comemora.

Com informações do Diário do Nordeste.