Abrir as torneiras de casa e ver a água cair - uma cena que, em pleno século XXI era para ser natural - sempre foi uma realidade distante para a agricultora Maria Moreira. Por mais de sete décadas, ela nunca teve água disponível em sua casa, no Sul do Estado. "Vivi 73 anos sem água encanada".
O caso da idosa não é uma exceção no Ceará. Atualmente, no início desta pré-estação chuvosa, cerca de 54 mil famílias convivem com dificuldades no abastecimento e se veem obrigadas a caminhar longas distâncias para colher água em açudes e poços - isso quando a chuva é generosa e enche esses locais.
Para driblar a dura realidade, esses cearenses necessitam de programas assistenciais que possam garantir acesso à água. A construção de cisternas de placas é um deles. Cisterna é um elemento prático e objetivo de convivência com o semiárido.
No período chuvoso, ela capata a água da chuva e, nos demais meses de estiagem, os moradores que têm o equipamento instalado ao lado de suas casas passam a ter acesso a água potável.
QUEDA NOS INVESTIMENTOS
O programa do governo Federal criado para construir essas cisterna e trazer segurança hídrica ao sertanejo tem recebido menos investimentos nos últimos anos.
Entre 2015 e 2020, a queda na construção destes equipamentos no Ceará chegou a 94,5% em relação a 2014, ano no qual mais se adotou essa tecnologia de combate à seca (149 mil unidades).
Atualmente, a Articulação do Semiárido (ASA) estima que sejam necessárias a construção de 54 mil cisternas no Ceará.
Quando observado todo o semiárido brasileiro, este número salta para 350 mil unidades de déficit.
A ASA é uma rede de organizações sociais que está presente em todo o semiárido - nos noves estados nordestinos, mais a região norte de Minas Gerais. Há 21 anos essa rede mobiliza instituições sociais para melhorar a qualidade de vida dos sertanejos.
O coordenador executivo da ASA-CE, Marcos Jacinto, mostra preocupação com a descontinuidade nos repasses por parte do governo Federal para construção das cisternas. "Há um número significativo de famílias no Estado que não tem acesso á água potável", lembra.
Conforme Marcos, o programa de cisternas, iniciado em 2013, tem "passado por um processo de diminuição [de investimento] desde 2016, a ponto de que em 2019 e 2020 nós não tivemos nenhum recurso federal para execução dessa política".
Com informações do Diário do Nordeste.