terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Casal de idosos morre com um dia de diferença e história de amor marca bairro de Fortaleza

Foto Thiago Gadelha.
Não são feitos fantásticos. Quase nunca é. Ir juntos à mercearia comprar pão. Sentar na calçada ao fim de tarde para conversar. Dividir o mesmo banco na missa. Os mínimos gestos de seu Francisco e dona Luzia contam histórias. Desde a virada de 2025 para 2026, também deixam saudades. Partiram com poucas horas de diferença, e num momento crucial.

Na mesma manhã em que fogos de artifício coloriram o céu noturno, o patriarca faleceu. Eram 10h do dia 31 de dezembro de 2025. Sempre saudável e lúcido, contraiu pneumonia, ficou internado, chegou a voltar para casa, mas retornou ao hospital – e logo para a Unidade de Terapia Intensiva. Não resistiu. Tinha 86 anos de idade. Foi um Ano Novo muito triste.

A esposa tinha 85 e histórico diferente. O corpo nunca foi forte, há tempos lidava com questões de rim, coração e memória. Desenvolveu Alzheimer e, portanto, não recordava detalhes. Só sabia estar viva e que alguma coisa tinha ocorrido naquele último dia de 2025. Movimento estranho dentro de casa, gente chorando e apressada entre os cômodos.

“Passava pelo caixão e ficava olhando os panos brilhosos, as flores. Encostava a mão, mas não sabia o que estava acontecendo”, conta Antônia, uma das filhas. Chegou a dormir e, na manhã do outro dia, tomou café com leite – bebida favorita – na casa da rebenta. Em algum momento, subiu as escadas e deitou para descansar. Fez o sinal da cruz e relaxou.

“Na noite anterior, falei pra ela que o pai tinha morrido, e ela ficou ali, pensativa. Nesse outro dia, deitei ela na cama, enrolei, e desci as escadas pra resolver as coisas do velório. De vez em quando, eu e meu irmão íamos no quarto pra saber se estava tudo bem. Até que estranhei ela estar dormindo tanto, já que não costumava fazer isso devido às dores. Quando coloquei a mão na testa dela, estava friinha; quando peguei na mão, estava molinha”.

Era 1º de janeiro de 2026. Dona Luzia virou estrela. Cortou o firmamento para encontrar o amado. Nessa despedida dupla tão próxima, um bairro ficou órfão. A população do Barroso que conhecia o casal, adorava-o. O legado deles está no pequeno que se agiganta, na ausência que se faz aceno, bodega e cadeira de plástico.

Conheceram-se jovens e casaram tão novos quanto – ele com 21, ela com 20. Vinham do interior do interior, municípios de Mombaça e Tauá, respectivamente. Passaram a morar em Fortaleza há 10 anos, muito por ocasião das enfermidades de dona Luzia e da necessidade de estarem próximos à filha. Saíram do sítio em Aiuaba e instalaram-se a quatro casas da morada de Antônia. Ficar pertinho, além de importante, era bom demais.

Ali construíram um novo império de bem-querer. As ações descritas no início deste texto não são perfumaria. Seu Francisco e dona Luzia iam, sim, comprar pão juntos todos os dias na mercearia. Também colocavam as cadeiras para fora e sentiam o vento Aracati na calçada.

Dona Luzia mesmo dizia a qualquer um que passava, “vá em paz e seja feliz”. E, claro, católicos que eram, iam à missa para rezar um ao lado do outro, pedir e agradecer.

Construíram herança carinhosa para além dos cinco filhos, 12 netos e cinco bisnetos. Vestígios sentidos na poeira da rotina. Não à toa o choro coletivo na casa da filha diante da partida em par. Ruas e espaços inteiros exalavam ausência. Nunca mais serão ocupados por eles. “As pessoas ficaram emocionadas com o caso porque foi realmente incrível”.

Antônia, porém, não sente tristeza nem dor. Só saudade. Sente que Deus os livrou do sofrimento, e por isso é mais grata que chorosa. “Tive uma vida intensa ao lado deles, muito bem vivida. Graças a Deus quiseram ficar perto de mim nessa fase final da vida porque era o que eu queria: meu ‘veim’ perto pra que, quando chegasse a última hora, eu estivesse”.

Agora ela tende a olhar os cantinhos com a cara deles e perceber a feição dos dois abraçando tudo. Acredita ser uma história bonita porque sinônimo de resistência e respeito.

65 anos de casados, nos quais seu Francisco nunca descuidou de dona Luzia, dona Luzia sempre foi atenta a seu Francisco. De tanto gostarem de gostar, tornaram-se amados por todos.

“O amor não se vangloria, não busca o próprio interesse. Se uma pessoa ama a outra, está sempre preocupada com ela. Por isso mesmo, ainda que minha mãe fosse fraquinha, o fato de meu pai ter morrido foi quase um empurrãozinho pra ela partir. Acho que essas coisas são coisas de Deus. Se dependesse da fraqueza dela, ela tinha ido antes. Mas Deus sabe por que isso não aconteceu. Meu pai talvez sofreria muito, não aguentaria a partida dela”.

Em alguma esquina do Barroso, nos comércios e nas placas todas, duas pessoas de cabelo branco, pele enrugada e jeito sereno de encarar a existência ainda permanecem. Os feitos fantásticos deles são os gestos simples.

Esta é a história de amor de Francisco Araújo Pedro e Luzia Gomes Pedrosa entre eles e pelo bairro Barroso. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.

Com informações do Diário do Nordeste.