A desempregada Jaqueline Batista dos Santos, 50 anos, uma das pessoas que aparecem em um vídeo retirando comida de um caminhão de lixo, em Fortaleza, conta que a vida dela pirou durante a pandemia e hoje tem “inveja” de quem tem emprego.
'Só tenho inveja de uma coisa: quando vejo uma pessoa vindo do trabalho', disse.
A mulher diz que os chamados para fazer serviços de faxina sumiram. “Ficou tudo difícil na pandemia, tudo. Eu fazia uma faxina, aparecia uma faxina e fazia, mas de lá pra cá, tudo foi por água abaixo e a realidade é essa”. Segundo o Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (IBGE), 14 milhões de brasileiros estão desempregados.
E o dinheiro do Bolsa família fica longe de cobrir as despesas de Jaqueline. "Eu recebo R$ 150 do Bolsa Família, que é só meu, mas são R$ 150 por mês. O que você faz com R$ 150 por mês? Nada. Mas assim mesmo ainda agradeço porque é uma ajuda, se não fossem esses 150 ainda seria pior, afirmou.
Jaqueline e a filha Jocasta passaram a procurar comida nos caminhões de limpeza urbana que recolhem resíduos descartados de uma área comercial perto da comunidade onde as duas vivem. “Moro só, mas eu estou desempregada, não tenho trabalho e pra sobreviver eu tive que vir pra cá, pro lixo, pegar as coisas pra comer", disse.
O vídeo que viralizou nas redes sociais foi feito por um motorista que passava pelo local em 28 de setembro e mostra um grupo de nove pessoas revirando a caçamba do carro de lixo para conseguir comida nos fundos do complexo comercial que reúne supermercado, lojas e lanchonetes no Bairro Cocó, área nobre de Fortaleza. A imagem foi compartilhada nas redes sociais no domingo (17).
A maioria das pessoas que estão nas imagens, assim como Jaqueline e a filha Jocasta, mora na Comunidade do Trilho, que está em uma área cercada de condomínios e estabelecimentos.
Antes, elas olhavam as lixeiras desses locais principalmente para retirar latinhas, garrafas e papelão para vender e completar uma renda composta por programas sociais e bicos. Com a retração econômica na pandemia, o dinheiro ficou mais curto ainda. E agora o que essas pessoas procuram no lixo é comida.
Macarrão, carne e fruta
A dona de casa, que mora em apenas um cômodo, contou que no dia da filmagem conseguiu recolher macarrão instantâneo, carne e fruta. Em casa, ela separa o que dá para comer.
“Naquele dia eu trouxe miojo, trouxe maçã, trouxe uva e trouxe carne. Quando ele virou o tambor foi na hora que eu peguei, que eu vi dentro do carro e aí eu me agachei para pegar. Aí eu subi, porque, assim, quem não pegar primeiro, os outros vem e pega”.
Dormindo com fome
A mulher revelou ainda que quando sente fone, o “remédio” é agradecer a Deus e dormir.
“É ruim você dormir com fome, é muito ruim. Mas me levanto, pego um copo d'água e pede a Deus, que Deus passe e passa porque Deus é fiel. Quando bate a fome? Eu vou dormir, boto um copo d'água, ofereço para cima e agradeço a Deus e eu durmo porque Deus é fiel”, contou.
Com informações do G1 Ceará.